terça-feira, 18 de setembro de 2012

Trail em Abrantes e btt no Sicó


Quarta à noite.

Depois do trail em Oleiros, na passada semana foi a vez do trail em Abrantes como havia ficado combinado. Desta vez fomos mais. No total 7. Por volta das 19.30 lá nos apresentámos à porta do Nuno para mais uns quantos quilómetros de trail nocturno. Digo “quantos quilómetros”, porque a “organização” não disponibilizou à partida o número de quilómetros exacto. Seria entre vinte e trinta, como foi dito. Depois dos cumprimentos iniciais e da troca de presentes (o Pedro de Oleiros levou de recordação uma garrafinha de medronho ao Nuno, garrafa essa que viria ainda a dar muito que falar) e da chegada do Machado, lá partimos para a noite Abrantina que estava mais uma vez excelente para a prática do trail run.

A saída de Abrantes fez-se a subir até ao castelo local, onde se pôde apreciar a beleza sempre proporcionada por uma vista nocturna. Daí o Nuno fez uma visita guiada pelo centro da cidade onde fomos desviando alguns olhares à nossa passagem. Depois descemos até ao campo de baseball e daí entramos no trail propriamente dito. Carreiros de sobe e desce mais áridos ou pelo meio da mata que nos levariam (por volta do quilómetro dez) até ao parque urbano de São Lourenço. Aí abastecemos os cantis, comemos qualquer coisa e voltámos a embrenhar-nos na noite. Os quilómetros seguintes foram pelo meio de um eucaliptal com muito areão solto e escorregadio que não sendo bom nas subidas não melhorava em nada a descer. Por volta do quilómetro 20, entrei em piloto automático. Até ao 23 custou-me bastante. Ia ouvindo o Nuno e o Filipe em animada conversa como pano de fundo, mas já só tinha olhos para o chão, já nem tinha força para rir das piadas que diziam. Como tinha que manter a mente ocupada fui tentando arranjar justificação para aquele cansaço, fazendo contas ao que havia corrido desde a semana anterior; com os 27 quilómetros desse dia, daria o bonito número de noventa e sete quilómetros nas pernas numa semana. Nada mau. Até animei qualquer coisa. Do vigésimo terceiro até ao fim a coisa acabou por melhorar (talvez por ser a descer). 

Após deixarmos o Machado em casa seguimos até à casa do Nuno onde o jantar nos esperava e por lá nos mantivemos até por volta das três da manhã. Deitar tarde nestes dias, já vai sendo um hábito. Enquanto o comum corredor se hidrata com água, o verdadeiro fá-lo com medronho, pelo menos duas goladas dele, mas duas goladas à patrão, assim à séria. Ainda temos muito que aprender com o João no que respeita à arte de hidratar. Passo a explicar; o Nuno ao receber a garrafa que o Pedro lhe deu, não se apercebeu que a mesma era de medronho, por ser uma normal garrafa de água de 1,5 litros. Diria depois que estranhou a oferta de uma garrafa de água de litro e meio, mas acabou por colocá-la no frigorífico. Quando da nossa chegada ao pedir-lhe água, fomos presenteados com aquela bomba. Tive a sorte de me distrair com umas ameixas que me apareceram à frente, sendo o João o primeiro a encher um copo de medronho para beber de golo. Acabou por não ser todo de uma vez, mas aqueles dois golinhos (até começar a queimar na descida) ninguém lhos tira. Não fosse a comezaina que se seguiu e tinha eu que trazer o carro até casa. Esta semana será em Pedrógão (aceitam-se inscrições) para mais uma noite de trail, comezaina e poucas horas de sono. Os dias seguintes seriam de descanso, porque no sábado seguinte esperavam-me mais 100 quilómetros para fazer de bike no Sicó.







Sábado.
Quando o despertador tocou sábado de manhã, passava meia hora das cinco. Lá fora continuava tudo escuro e o dia não dava sinais de querer nascer. Saí de casa ao encontro do António que esperava por mim para os lados de Pombal para irmos até às Meirinhas ao encontro dos restantes. O início aconteceu em frente do pavilhão das Meirinhas. O Sicó estava à espera. Gosto sempre de pedalar no Sicó, porque apesar de ser bastante duro com muita pedra, também tem uma diversidade de trilhos e trialeiras que escorrem serra abaixo.
Como o meu dropout faleceu recentemente (não havendo em stock – incrível, sendo um quadro deste ano) ia experimentar a trek 29 do António que teve a amabilidade de me passar para as mãos uma máquina topo de gama. Não estou a ver melhor sítio para testar todas as potencialidades de uma roda 29. E que teste, foram 107 quilómetros dele.





O início fez-se em alcatrão, como aquecimento para o que havia de vir. Um conjunto de subidas e descidas por carreiros apertados com muita pedra e extremamente técnicos. Foi aqui que todas as vantagens da 29 vieram ao de cima. Passa pelos drops e partes técnicas com pedra como se se andasse em estradão. É incrível a facilidade com que o faz. Estava a ter gozo nas descidas como nunca. O calor fazia-se sentir e as paragens para abastecimento líquido (sempre que possível) foram uma constante e bem necessárias. Fomos deambulando por diversas aldeias sempre muito bem conduzidos pelo Márcio dos bttralhos que nos guiou muito bem. Continuámos, mais a subir do que a descer. A descida para o Rabaçal fez-se por um trilho já meu conhecido mas que se encontrava em piores condições desde a última vez, com regueiras e muita pedra solta, mas nada de mais para a 29. Aí parámos para almoçar e aproveitar o fresquinho do local (lá fora os termómetros rondavam os 40º).





O Alex que não estava a ter uma manhã nada fácil, ia-se debatendo com os sulfitos ingeridos na noite anterior, mas depois do almoço tudo melhorou.Arrancámos em direcção às Malhadas onde fizemos mais uma pausa para hidratação. Estava mesmo muito quente.A conversa foi uma constante e a diversão continuou com a diversidade de caminhos e carreiros com que nos íamos deparando.Aos poucos fomo-nos aproximando de Vermoil mas ainda faltava a última subida do dia, digna desse nome. O Márcio confidenciou-me que passando por alcatrão seriam 20 metros a subir e depois sempre a descer até Vermoil, mas só o diria mais para a frente, e assim foi. Ainda bem que assim foi, porque se assim não fosse perderíamos a descida final em jeito de quase downhill, que mais um vez a 29 ultrapassou sem problemas. Ainda assim ainda houve uns eucaliptos cortados pelo meio e uns mortais encarpados com flik-flak à rectaguarda (há pessoal que não perde uma oportunidade de dar espectáculo). 




Em Vermoil fizemos o último abastecimento líquido e depois foi sempre a rolar até às Meirinhas onde um retemperador banho nos esperava. No final ainda tivemos direito a lembrança (com é costume dos Trilhos Simples) e a um chabafado (como alguém lhe chamou), tal a temperatura a que se encontrava. Por volta das 23 horas, após o jantar regressámos a casa, cansados mas satisfeitos pelo excelente dia. Um obrigado especial ao Márcio dos bttralhos pela forma como nos guiou pelo Sicó e pelas instalações que nos arranjou para os banhos, do melhor. Quanto à roda 29, confesso que estava um bocado céptico quanto ao desempenho da mesma. Tinha para mim que seria mais uma moda do que outra coisa. Não podia estar mais enganado. Compreendo que nem todos se adaptem àquela bike, mas no meu caso, assentou como uma luva. O facto de ter experimentado uma máquina topo de gama também ajudou e isso só posso agradecer ao António por me confiar “a sua menina” naquele terreno tão pouco “material friendly” mas sem dúvida o indicado para tal teste. Agradeço mais uma vez, mas nunca serão as suficientes. 





As fotos foram “roubadas” ao Bruno e ao Pedro Assunção e os vídeos ao António.







domingo, 9 de setembro de 2012

De volta ao trail


Segunda à noite, estava eu tranquilo a fazer zapping pela quantidade absurda de canais que possuo (todos os 4) quando recebo um telefonema do Filipe a convidar-me para uma corrida nocturna em Oleiros com o Nuno e mais uns amigos de lá. Claro que a minha vontade imediata foi aceitar. Encontrava-me então com um demónio em cima do ombro que me dizia para aceitar e ir, não importando nada a minha preparação, ou a falta dela. Do outro o anjo do bom-senso que me dizia para ficar em casa tranquilo em vez de ir para Oleiros desgraçar a minha vida. O Filipe foi avisando que a primeira hora seria sempre a subir até ao cimo da serra de Alvelos sendo que depois descia-se de novo até Oleiros. Seriam mais ou menos 20 quilómetros e depois de nova passagem por Oleiros voltar-se-ia a subir de novo mas por outro lado, fazendo-se mais 9 quilómetros. Pontos contra; ter recomeçado a correr há pouco tempo; fazer até então corridas no máximo de 8 quilómetros; ser à noite (pelo menos no btt nunca gostei de provas nocturnas) e não sei se já tinha dito, a primeira hora ser sempre a subir. Pontos a favor… não me conseguia recordar de nenhum, a não ser a excelente companhia em que encontraria, mas isso não me livraria do empeno, mas só por si valeria bem a pena. Quando dei por mim, o anjo do bom-senso desaparecera o que me levou a seguir o conselho do demónio (poderão ser sempre os piores, mas também sempre os mais interessantes). Apesar de tudo poderia sempre fazer só os 20 quilómetros e ficar por ali. Ainda telefonei ao Nuno que me descansou e me disse que se o ritmo fosse muito forte, ficaria comigo mais para trás e eles teriam que esperar por nós por não sabermos o caminho. Vim a descobrir tarde de mais que o Nuno após umas férias a fazer treino em altitude estava fortíssimo, but the damage is done.


A partida estava prevista para as 8, mas eu e o Nuno atrasámo-nos, mas foi um atraso propositado e passo a citar “para que passe o efeito de todas as merdas que eles tomaram”. Acabámos por sair por volta das 9 e tal. Cinco. O número de participantes, o que à partida me garantia um lugar no top five, o que era excelente. A minha esperança de que o Filipe tivesse exagerado um bocadinho a coisa, depressa se esfumou. Logo à partida apontou para umas luzinhas lá ao cimo e lá ao fundo e disse que era para ali que tínhamos de ir, o que vim também a descobrir tarde de mais que não era exactamente assim, era ainda um bocadinho mais acima.


Os primeiros quilómetros ainda pouco inclinados foram acompanhados de conversa da boa onde apesar de tudo fui dizendo que afinal subidas daquelas fazia eu ao pequeno-almoço. Mais valia dizer alguma coisa enquanto podia. Com o avançar dos quilómetros a subida foi inclinando e a conversa foi sendo substituída por um arfar. Pelo menos eu não ouvia mais nada. O Nuno ia lá para cima. Não sei ao certo o que é que ele tomou, mas era de qualidade superior. Consegui fazer quase tudo a correr à excepção dos últimos metros. Apesar de tudo fui o último a chegar, ainda assim não os fiz esperar muito (acho eu). Para o treino que tinha fiquei bastante contente com a minha prestação. Ainda tentei tombar o Filipe para não chegar em último, mas ele teimou em não cair. Tínhamos subido dos 527 aos 1072 metros com algumas pendentes bem interessantes pelo meio de 27%. A noite estava muito boa sendo que lá em cima a temperatura era de 22 graus.


Para baixo curiosamente foi sempre a descer e ainda fizemos um desvio por uma charca onde se passam coisas estranhas, ou então é aquela gente de Oleiros. Ainda consegui deixar cair a tampa do meu ex-bidão para dentro de uma fonte, agora está transformado em copo. Enfim, mais uma para juntar ao dropout.


A chegada a Oleiros fez-se a bom ritmo mas como era a descer, voltou a conversa. Apesar de ainda conseguir aguentar mais qualquer coisa, achei que para início estava bom. Ainda havia outra serra para subir e mesmo que mais pequena, não havia necessidade de borrar a pintura. Fiquei por ali com o Nuno, mas o da Covilhã, não o de Abrantes (esse ainda cheio de força parecia que tinha ido só ali ao fundo da rua ao pão). O Filipe teve a amabilidade de telefonar à esposa para que deixasse tomar banho e que me emprestasse uma t-shirt cujas palavras foram mais ou menos estas “vais à gaveta e tiras a t-shirt mais foleira que lá estiver, uma que eu não goste e nunca use”. Obrigado Filipe; daqui a duas semanas estaremos em Pedrogão e às vezes não tenho água quente em casa.


No final da noite ainda fomos comer um pica-pau e por lá nos mantivemos até por volta das 2.30 à conversa. Caí na cama por volta das 4 de estômago e alma cheios.


Ficou combinado uma vez por semana uma corrida na terra respectiva de cada um de nós, sendo que na próxima Quarta iremos até Abrantes. Vamos ver o que o Nuno nos terá reservado. Não perspectivo nada de bom. Com o respectivo atraso passarei por aqui para deixar a minha versão dos factos.


Obrigado ao Filipe pelo convite que em boa aceitei, ao Nuno pela boleia e aos restantes pela companhia. Foi uma noite de topo. Só mais uma coisa, ao contrário do btt, adorei correr à noite. Muito bom.


sábado, 1 de setembro de 2012

O coração da Gardunha


Após tanto tempo parado, mandava o bom-senso que a primeira saída fosse coisa relativamente fácil de modo a evitar o anunciado empeno. E como o bom-senso mandava que assim fosse, fiz precisamente o contrário. Liguei ao António de forma a passar da melhor forma o último dia de férias e ele que nunca recusa um desafio nem nunca deixa ninguém para trás, aceitou guiar-me neste dia. Após alguma indecisão decidimo-nos pela Gardunha, que apesar de relativamente perto, nunca por lá tinha pedalado. Pelas sete e trinta encontrei-me com o António em Castelo Branco, e segui com ele em direcção à Soalheira, de onde saímos.


Depois de tudo pronto e do cafezinho habitual, lançamo-nos à Gardunha. Os primeiros quilómetros foram rolantes com passagem em São Fiel antes de começarmos a subir. O António lá foi avisando que apesar da pouca quilometragem andaríamos pelo coração da Gardunha o que nos garantia “bonitas subidas”. Lá fomos subindo até ao Casal da Serra passando pelo Alto da Cruz. E aqui como diz o António “voltámos a subir”, o que é sempre bom, depois de uma subida… outra subida. Chegados lá acima, tínhamos mesmo que descer e assim foi até ao Souto da Casa e depois até ao Casal de Álvaro Pires onde nos esperava uma calçada. Pois é, já cá faltava, seja qual for o local, se por lá houver uma calçada, o António vai dar com ela. Vim a saber mais tarde que o faz apenas com o objectivo de “agitar o óleo das suspensões”.


Daí até às antenas foi sempre a subir, ao que parece durante nove quilómetros, com algumas pendentes de 20%, portanto, precisamente aquilo aconselhado pelo bom-senso. Mas para ser sincero, nem custou assim tanto, não que a dificuldade não estivesse lá, mas a companhia do António, excelente conversador e contador de histórias, deixava isso para segundo plano. Pelo caminho passámos ainda por Ausência, não sei bem se será um local, porque a distância que separava as duas placas (a de início e a de fim) seria para aí de dez metros. Como disse o António, Ausência, só de descidas. Ainda houve algumas partes para fazer à mão, uma vez que o mau estado do terreno obrigava a que assim fosse, nem o Sargento Domingos subia aquelas. Regueiras enormes de onde só se saía de escada e um areão muito seco e escorregadio. Também era durinho, tive oportunidade de comprovar isso mesmo, felizmente a subir, mais vergonhoso, mas melhor para a integridade física.
A chegada lá acima fez-se de sorriso nos lábios. A paisagem típica de serra, rocha e mato rasteiro enche a vista e a alma de qualquer um. Estávamos a 1215 m.

A partir desse ponto foi quase sempre a descer até à aldeia histórica de Castelo Novo onde tem precisamente início a GR22. A entrada na aldeia como não podia deixar de ser foi feita por uma calçada romana. Depois de saciada a sede com a refrescante água da serra chegou a altura de fornir o bucho com qualquer coisa sólida. Como o dia estava quase ganho, faltavam apenas seis ou sete quilómetros para o final, por ali nos mantivemos bastante tempo à conversa.

O final, tal como o início foi rolante e levou-nos de regresso à Soalheira de onde saímos em direcção a casa depois de tudo arrumado e de uma fresquinha em jeito de despedida.
Um obrigado ao António, excelente companheiro de pedal e de conversa. Nem durante as subidas a conversa se cala, e isso torna a coisa mais fácil, muito mais fácil.
 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Seis X cinco empenos

Tudo começou há seis anos atrás quando desafiei o Nuno para um percurso com algumas subidas interessantes a que por graça dei o nome de cinco empenos. Queria saber qual a opinião dele sobre o percurso e uma ideia que queria concretizar. Por esse tempo, os passeios que existiam eram todos iguais. O percurso era marcado com fitas, com todos os inconvenientes que isso acarreta. Normalmente o montante da inscrição só chega para colocar as fitas e acaba-se na altura das ir tirar. A minha ideia na altura era organizar um percurso sem fitas, guiado por gps onde teriam que ser os atletas/ participantes a preocuparem-se com toda a logística necessária para a realização do percurso. Hoje já se vê muita coisa desse género, mas na altura só o transportugal funcionava dessa forma. As inscrições seriam gratuitas e todos os participantes teriam direito a seguro e banhos. No final far-se-ia um jantar convívio com todos os participantes, ficando a despesa do mesmo a cargo de cada um. A vez experimental aconteceu no dia 6 de novembro de 2007. Com o Nuno vieram o Machado e o Francisco também de Abrantes. Como a ideia pareceu agradar-lhes decidi avançar com a segunda edição dos cinco empenos. Seria a primeira nos moldes que tinha imaginado, e aberta a todos os que quisessem participar até um limite de 40 participantes. Ficou marcada para o último sábado de março (data que se mantém até hoje). Por esta altura o Hernâni (pessoa de coração grande e sempre solidário) falou-me num miúdo de nome Samuel com um grave problema de saúde. Se se pudesse contribuir de alguma forma para ajudar o Samuel seria óptimo. As inscrições continuaram grátis e optei por apelar à solidariedade de cada um. O montante que se realizasse seria entregue ao Girão que se encarregaria de o fazer chegar ao Samuel. Por motivos diversos (calculo que relacionados mais com o facto de que tudo o que é grátis não presta) apareceram apenas os amigos e um desconhecido na altura, o José Andrade da Figueira da Foz. Como eramos apenas 16 e quase todos conhecidos optámos por fazer o percurso todos juntos. O resto da história pode ser vista aqui (2007) e nos anos que se seguem (2008, 2009, 2010, 2011). Apesar de tudo conseguimos 220€ no final do jantar (cada um contribuiu com o que pôde) e o Jerónimo ofereceu uma bike, restaurada por ele, para leiloar entre os participantes. Como eramos poucos optou-se por rifas que seriam vendidas numa das diversas maratonas em que o Girão participasse, ficando ele responsável pela dita. Mas a história não acaba aqui. Na referida maratona, encontrava-se também o Hernâni que viria a ser o justo vencedor da bike do Jerónimo. Uma vez que era para ajudar, o Hernâni voltou a oferecê-la ao Girão que voltou a repetir o processo outra vez noutro lugar. O que começou com uma brincadeira para ajudar o Samuel com qualquer coisita acabou por revelar-se uma ajuda bastante considerável. Ficámos todos felizes.

Foi este o início dos cinco empenos. Daí para cá, tem sido apenas um dia de festa e de reencontros onde se juntam amigos e outros que são amigos dos amigos que passam a ser amigos de todos.

O número tem oscilado, mas nunca havíamos sido tantos como este ano. Fomos 27.

Depois de no ano anterior ter alterado o percurso (para o lado das Corgas e do Picoto Rainho) este ano voltei ao percurso original, mas com pequenas alterações. Seria bastante mais técnico, mais comprido e consequentemente ligeiramente mais duro.

A chegada foi-se fazendo entre as 9 e 9.30. depois dos cumprimentos, dos já habituais Jesuítas do Jerónimo e do abatanado do Silvério, fomo-nos aprontando para mais um início dos cinco empenos.

Os quilómetros iniciais também foram diferentes do habitual. Desta vez o motivo foi o alcatrão que avança por todo o lado. Fomos subindo até ao Vale do Pereiro. Dali à Longra era um saltinho, mas descemos tudo para voltar a subi-la pelo segundo empeno (o original). Lá no cimo reagrupámos e seguimos até ao Marmeleiro onde abastecemos de água e laranjas, não sem antes remendarmos dois pneus e uma corrente.

Até à Azinheira foi um instante onde começámos o habitual single à beira da ribeira e depois o novo, que nos levaria até à praia fluvial do bostelim. Esta parte foi a mais técnica do percurso mas também a mais bonita seguindo sempre a par da ribeira. A passagem pela Relva antecedeu o início do terceiro empeno. O maior e mais difícil mas também o mais bonito a fazer as baixas do costume. Com o centro geodésico ali ao lado e uns pingos a vir de cima, descemos até Vila de Rei onde comemos qualquer coisa mais substancial.

O reinício fez-se por uma calçada romana que proporcionou umas sacudidelas e onde o gps do Leonel acabou por cair. Só deu conta uns quilómetros à frente e teve que voltar atrás a procurá-lo.

De seguida passámos na cascata do escalvadouro, local sempre bonito. Assim fomo-nos aproximando rapidamente da ponte das Charcas que antecedia o último empeno do dia, o mais curto mas o mais inclinado.

Palhais, Cumeada e Sertã. Os últimos locais de passagem antes do jantar. Todo o percurso decorreu com a boa disposição que se impõe onde a conversa e as gargalhadas estiveram sempre presentes.

Deixo um agradecimento a todos os que vieram passar este dia comigo e em especial ao pessoal de Leiria pelos bonitos empenos que me ofereceram. Gostei mesmo, a sério. Para o ano há mais.

Um abraço a todos.























quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Redcross trail - Maiorca


Após uma retemperadora semana de férias na praia nada melhor que uma corridinha para finalizar as mesmas em beleza.

Como estava pela Figueira da Foz resolvi participar nesta redcross trail, uma corrida (com objectivo solidário) que se desenrolava desde a praia de Quiaios até à localidade de Maiorca e que tirando a Serra da Boa Viagem pelo meio, não antevia dificuldades de maior. A organização anunciava um acumulado de quase 600 metros e seria portanto basicamente uma subida, uma descida e uma mais ou menos recta que se estenderia por 31 quilómetros. Seria, mas não foi.

Foi com o nevoeiro de Domingo que me desloquei até Maiorca onde já estava o João que mais uma vez me acompanhou nesta jornada. Com os dorsais no peito e um café no bucho entrámos para os autocarros. Quando de lá saímos estávamos à beira mar, onde iria ter início a jornada.

Os 2 quilómetros iniciais foram feitos na praia onde o mar de corredores ao ritmo do outro subia e descia ao sabor das ondas aproveitando a areia mais dura. Depois começava-se a dura subida por entre os imponentes e íngremes rochedos que se inclinavam até lá acima. Pelo caminho passamos por bonitos carreirinhos que se iam estendendo pela encosta sempre com a praia e o mar lá em baixo. Por essa altura fui comendo uma barra que me caiu no estômago como uma pedra o que me obrigou a baixar o ritmo para não vomitar. No primeiro abastecimento apenas consegui beber, mais porque tinha que me manter hidratado. Entretanto o João já seguia lá mais à frente.
A envolvência entretanto mudara e apesar de devagar, ia deixando para trás árvores, arbustos e vegetação mais ou menos rasteira típica de montanha. Assim se foi até ao segundo abastecimento. Mais uma vez apenas água para hidratar. Apesar de não me sentir pior, também não havia melhorado grande coisa e sem comer não havia tendência para isso. 

Ao meu lado iam passando agora eucaliptos. Sem dúvida a parte mais feia do percurso. Também fui encontrando algumas subidas, curtas mas íngremes.
O terceiro abastecimento trouxe muitos túneis, muita pedra e ainda alguma água mas dentro dos sapatos. Por esta altura comecei a sentir-me menos mal e fui passando alguns participantes que seguiam em pior estado do que eu. Antes do reforço final apareceram umas 4 paredes que acabaram com a pouca energia que ainda tinha. Ainda tomei um gel a medo mas de qualquer forma já era tarde. The damage was done. Após 29 quilómetros com uma barra e um gel, não podia pedir mais. Tinha a certeza que os 600 metros de acumulado haviam passado há muito, mas de qualquer forma restava-me continuar e só não chegaria ao fim se caísse para o lado.

No último reforço faltariam apenas três quilómetros como me informaram. –pois sim, pensei. Afinal foram mais dois além desses três, mas quando se segue sem forças dois quilómetros podem parecer intermináveis. E assim foi. De qualquer forma lá me fui arrastando pelas planícies de Maiorca e pelos campos de arroz em perfeito piloto automático só com a meta na cabeça. Quando apareceu, fiquei feliz, a sério, mesmo feliz.
O João já havia chegado e estava por ali à conversa e à minha espera.
Para corrida relativamente descontraída, saiu-me um empeno à antiga. Bem sei que a culpa foi maioritariamente minha porque ao longo de 34 quilómetros quase não comi nada, mas os 1707 metros de acumulado ascendente também ajudaram e de que maneira.

Assim como assim vinguei-me e fui repor tudo com um rico cozido à portuguesa. 
Dormi bem nessa noite.

(como não tenho fotos ficam algumas das férias)




terça-feira, 11 de outubro de 2011

K42 - Portugal ou Pó de arroz


Não raras vezes enquanto corro ou ando de btt instalam-se músicas na minha cabeça, que me vão acompanhando ao ritmo dos quilómetros. Desta feita foi o Pó de arroz, conhecidíssima música de Carlos Paião mas na versão do Tiago Bettencout. Não faço a mínima ideia do porquê de determinadas músicas me acompanharem ao longo de tantos quilómetros mas não só não me incomodam, como acabam por me ajudar a impor um ritmo mais certo. Christopher Mcdougall no seu Nascidos para correr (título que aconselho a todos, gostem de corrida ou não) refere alguém cujos nome e palavras exactas não consigo recordar mas apenas a ideia que era mais ou menos esta; torna-te amigo da dor e nunca correrás sozinho. No meu caso (além da dor ocasional) quem me acompanha é a música e talvez por isso quando corro sozinho não me custe.
Mas desta feita não foi o caso, corri sempre acompanhado. Primeiro do João e do Germano (para além do já referido Pó de arroz) e depois só do Germano, mas nunca sozinho.

O dia começou cedo, ainda antes de amanhecer. A noite apesar de acompanhada por alguma expectativa foi bem dormida. Vestir, pequeno-almoço pegar no saco e seguir em direcção à Lousã (na companhia do João) onde 42 quilómetros e um desnível ascendente acumulado de 3500 metros nos esperavam. Pelo menos eram estes os dados da organização.
Eram precisamente esses valores que me deixavam algo apreensivo. Confesso que a maior distância que havia corrido até então tinham sido 27 quilómetros com 1400 de acumulado ascendente. Não sabia portanto como reagiria o meu corpo a partir de determinada distância com esta bonita soma de ascensões. O objectivo que tinha traçado era o de chegar ao fim, correr a primeira maratona da minha vida mas neste cenário e com estes números. Fazer uma alimentação e hidratação correctas (a velha história do comer antes de ter fome e beber antes de ter sede) e manter um ritmo que me permitisse passar pelos quilómetros sem arfar era o planeado.

A chegada à Lousã foi rápida. Levantamento dos dorsais, passagem pelo café e preparativos finais. Entretanto encontro o Sérgio e os seus colegas de equipa que ao vê-lo nas suas Salomon novas trataram de o advertir para que não lhes vomitasse em cima. A fama de certas pessoas precede-as. Ao que parece actualmente o Sérgio desenvolveu uma apurada técnica que lhe permite expelir o conteúdo estomacal em andamento e na direcção desejada. É um facto que o hábito faz o monge.

Preparativos mesmo finais e colocámo-nos na linha de partida. O 3,2,1 lá chegou com alguns minutos de atraso e o chão começou a passar-nos debaixo dos pés. Os primeiros quilómetros foram feitos ao longo do rio Ceira ora de um lado, ora do outro, onde a passagem se fazia através do mesmo devido ao baixo caudal. Depois corremos durante alguns quilómetros ao longo de uma bonita levada de água. Foi assim que chegámos ao Candal, bonita e bem arranjada aldeia de xisto onde nos esperava o primeiro abastecimento ao quilómetro 8. Daqui até sensivelmente ao quilómetro 13,5 seria sempre a subir. É um facto que o K42 obrigou-me a redefinir a palavra subir. Grande parte desta subida foi feita com inclinações que variavam entre os 30 e tal e os 56% de declive. Eu sei que parece muito, mas foram os dados registados pelo meu Forerunner 305, sendo que mais adiante o declive ainda aumentou.

Apesar de tudo era uma visão incrível, quer se olhasse para cima ou para baixo ver tanta gente esticada ao longo daquela encosta. É fácil compreender o que leva tanta gente a aderir ao trail run. O facto de se encher a vista com imagens inesquecíveis e toda aquela gente numa comunhão com a natureza e a serra. É um facto que o sofrimento também estará presente, mas é só lá mais para a frente e só ajuda a converter esses, em momentos inesquecíveis.

A chegada aos poços na neve, fez-se na companhia do João e do Germano, bem como a descida até ao Coentral. A descida revelou-se bem mais complicada e penosa que a subida (pelo menos para mim). No Coentral estávamos no quilómetro 19 e no segundo abastecimento. A partir daqui esperava uma segunda parte do percurso menos complicada que nos permitisse aumentar um pouco a média. Não podia estar mais enganado.
Ao quilómetro 12 íamos sensivelmente com 2 horas de corrida. Neste ponto disse ao João –vamos ver como estamos de quilómetros nas próximas 2 horas. Ao quilómetro 21,5 o nosso tempo de corrida era 3 horas e 10. Faltavam-nos apenas 2,5 quilómetros para os 24. Iríamos superar em muito o andamento das primeiras 2 horas e chegar ao terceiro abastecimento no quilómetro 29 dentro das 4 horas. Mais uma vez não poderia estar mais enganado. Levámos uma hora para fazer 3,5 quilómetros. Para isso contribuíram um par de subidas e descidas como eu nunca tinha visto. Passámos dos 1022 metros para os 756 em apenas 600 metros de descida. O declive maior verificado foi de -65%.

O terceiro abastecimento no Talasnal ao quilómetro 29 chegou ao mesmo tempo que as primeiras cãibras do João que o obrigariam a diminuir o andamento. Começamos a perde-lo de vista na descida do Talasnal e perdemo-lo de vez na subida subsequente.

Ao quilómetro 32 começou a doer-me o adutor do lado esquerdo o que me dificultava um pouco a corrida, mas tão perto do fim, não iria ser isso que me impediria de terminar. O Germano também se via com algumas cãibras à porta que ameaçavam entrar a qualquer momento. Foi desta forma que fizemos os quilómetros que nos separavam do último abastecimento ao quilómetro 36. Ainda assim ultrapassámos alguns companheiros de jornada. Daí até ao fim seria sempre a descer, mas nesta altura já não esperava uma “descida normal”. Desta vez não me enganei (infelizmente). A descida foi feita pelas pistas de downhill da Lousã. Mais uma vez muito técnica a puxar muito pelos músculos já algo debilitados. Depois ainda corremos uns 2 quilómetros em estradão e quando faltavam 1800 metros para o final, ainda nos esperava mais um rebuçado com uns declives jeitosos. A Lousã já se avistava lá ao fundo, mas parecia nunca mais se aproximar. O quilómetro que nos levaria à meta foi feito a bom ritmo e como disse o Germano, -agora nem que fosse a rebolar. Lá chegámos lado a lado após 43,9 quilómetros, 3981 metros de acumulado ascendente e 7 horas e 6 minutos de corrida (dados do meu forerunner 305).

Como disse o Germano, podíamos ter ganho 15 minutos nos abastecimentos fazendo paragens mais rápidas, mas desta vez o objectivo não era esse (o meu pelo menos) mas para a próxima é um ponto a rever e a mudar concerteza.
O João chegaria mais tarde tendo ficado pelo quilómetro 36. As cãibras impediram-no de continuar, mas para primeira participação apanhando um percurso destes, foi excelente.
Continuo a gostar cada vez mais disto. Continuo a ficar impressionado quando alguém que está a competir para o campeonato, pára, perde tempo e talvez lugares para ajudar quem precisa, como aconteceu. Revejo-me bastante neste espírito.

Quanto à organização a Go-Outdoor, mais uma vez achei exemplar. A simpatia com que recebem os participantes, faz com que nos sintamos em casa e num ambiente familiar. Para o ano espero fazer o circuito todo, e depois logo se vê.
Agora é tempo de voltar à bicicleta porque para o fim do mês irei até Moimenta da Beira para um fim-de-semana de btt com alguns daqueles verdadeiros amigos. Por agora vou-me manter pela praia, a aproveitar as férias e o tempo excelente que está.

(As fotos utilizadas são do Sérgio Azenha e do Bruno Batista)