terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sierra da Gata - IX Raid Trilhos e Aventuras

A chuva caía copiosamente enquanto me deslocava até à aldeia raiana de Aranhas. Tal como aqui havia dito, desloquei-me até lá na passada sexta-feira. Sempre podia dormir mais umas horitas. Após ter chegado, ainda me mantive alguns minutos no carro à espera que a chuva abrandasse. Para molha já chegaria no dia que aí vinha.

Foi com esse pensamento que fui dormir, mas também certo que não seria esse pequeno pormenor que me estragaria o dia.

Entrei numa espécie de sono ou sonho que se prolongou noite fora…

O despertar, ou o que me pareceu na altura foi cedo; seria mesmo assim?

Na dúvida e entre a realidade e o sonho lá fui seguindo a rotina habitual nestes dias. E que bonito seria se estivesse sol lá fora. Mas como no meu sonho mando eu, o dia estava mesmo solarengo. Lindo…






Uma tia do meu pai que mora na casa em frente já se havia levantado e do alto dos seus 89 anos já havia acendido o lume, e preparava-me o pequeno-almoço. Apesar de me ter partido o coração, não pude sentar-me com ela e aproveitar o momento. Não podia deixar os cinco companheiros de aventura à espera, seria uma falta de respeito que eu não iria cometer. Acabei por prometer lá voltar um destes dias (e será breve) onde nos havíamos de sentar os dois à lareira e conversar durante um bom bocado a comer pão e queijo.



A viagem até à fronteira decorreu sem sobressaltos. A entrada em Espanha também. Não nos mandaram parar, afinal a cimeira da NATO era do lado de cá.


Após passagem em Valverde del Fresno seguimos até à pequena mas bonita localidade de Eljas. Eljas é a subir ou a descer. Pouco há de plano numa localidade que fica situada em plena Sierra da Gata, numa das suas pedregosas encostas.






O Início foi para baixo, e isso não é necessariamente bom, mas neste caso até foi. Os primeiros quilómetros foram feitos a rolar, como convém, mas rapidamente entrámos em bonitos carreiros e estradas rurais que nos levariam à povoação de San Martim de Trevejo. A partir daí, entrámos num sobe e desce constante através montes, vales, cancelas, riachos, rebanhos e cães, muitos cães com a particularidade de serem todos iguais, grandes e brancos com o focinho preto. Numa ocasião um desses referidos cães, tombou a cerca para vir atrás de nós e com ele as ovelhas. Desconfio que ainda hoje devem andar a junta-las. Encontrávamo-nos no Vale de Xálima.






Estávamos a caminho da conquista do castelo de Trevejo. Também esse para variar fica no cimo de um monte. O caminho que nos leva até lá é uma bonita calçada romana. Três quilómetros de subida naquele terreno. Mas a vista e a povoação que circundam o castelo, valem inteiramente a subida. Nem o vento cortante nos levou dali mais depressa. Depois de devidamente registado o momento iniciámos a descida para o vale que nos levaria depois (e a subir) até Villamiel onde parámos num pequeno café para comer umas tapas e umas canhas. Pois é, tinha que ser. Isto também é cultura. Ainda tivemos um episódio com um amigo que nos tirou três fotografias, conseguindo desfocá-las todas. Afinal o vinho em Espanha embebeda como o de cá.






Após alguma dificuldade para sair do emaranhado de ruas de Villamiel, iniciámos o regresso até Eljas. A parte mais bonita mas também mais dura esperava-nos.



Começamos com uma subidita para aquecer e em calçada para variar. A par comigo seguia o Tiago. Conseguimos fazer a subida quase toda sem trocar uma palavra, e não foi por antipatizarmos um com o outro.


Continuámos a subida onde passámos por diverso gado bovino entre o qual diversos touros em pontas. Felizmente o tamanho era proporcional à calma com que nos receberam. Chegados lá acima esperava-nos uma descida muito técnica com muita pedra que deu origem a algumas quedas, a minha incluída.


Já com Eljas à vista iniciámos a subida para Puerto de Santa Clara, no topo da serra. Esta sim, a subida em todos os aspectos. Dura, muito escorregadia mas com a paisagem mais espectacular que alguma vez vi nestes já alguns aninhos de btt. Um tapete de folhas dourado a cobrir (mais) uma calçada ladeada de milhares de árvores levou-nos até lá acima. Apesar da dureza, deve ter sido a subida que menos me custou fazer.









Lá no alto a vista soberba arrebatou-nos a todos. Um verde relvado acompanhou-nos durante as primeiras centenas de metros, mas o pior estava para vir. 7 quilómetros de descida feita em cima de pedra. Nunca tinha visto nada igual. Nem a Ruta das Sombras é tão complicada. Foi quase uma hora a descer para fazer esta distância. Pela primeira vez na vida, cheguei ao fim dum passeio com dores nos pulsos em vez de nas pernas.



Uma referência aos companheiros de viagem – excelentes. Boa disposição constante, sem stresses, sem confusão nenhuma. Nas palavras do António - Com malta assim, viver e conviver não é difícil, é viciante!!!


Um grande obrigado ao António alguém que muito estimo e admiro e o culpado por este dia magnífico.


Ao que parece este passeio faz parte de uma trilogia naquela zona. Eu estarei lá.










Diz o ditado que de Espanha nem bom vento, nem bom casamento, mas a semana que passou só nos trouxe coisas boas. 4 golinhos e uma exibição de encher o olho frente aos campeões do mundo e da Europa. Quanto a mim, aquelas paisagens e todos os locais por onde passei deixaram-me de alma cheia. Dificilmente esquecerei (e ainda bem) aquelas cores e aqueles cenários. A sensação magnífica que transmitem que não consegue ser inteiramente captada nas fotografias, apesar de termos tentado.






Ainda tenho todo o esqueleto a chocalhar; e que bem que isso sabe…

O relato do António

O relato do João Afonso

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

É já amanhã.

O António C. vai amanhã pedalar por Espanha no seu IX raid trilhos e aventuras. Como sou seguidor atento do seu espaço, aproveitei logo para me fazer convidado e acompanhá-lo nessa jornada.
O A. com a sua habitual simpatia aceitou a minha intromissão de bom grado.
Como se não bastasse só por si a qualidade das coisas que o A. faz para me motivar, há ainda uma motivação extra. Vamos andar pela Serra da Gata nas redondezas de Eljas e Valverde del Fresno (a localidade espanhola mais próxima da terra do meu pai).
É com saudade e alguma nostalgia que recordo o tempo em que ainda valia a pena ir a Espanha comprar quase tudo a metade do preço e em que o escudo era fortíssimo em relação à peseta. But, the damage is done e agora temos que levar com esta merda de governantes que mais não fazem do que sodomizar-nos constantemente. Ao menos eu tenho a minha consciência tranquila.
Adiante.
Recordo as muitas idas a Valverde del Fresno com os meus pais e sempre senti atracção pelo local, quer do lado de lá, quer do de cá da fronteira, muito antes ainda de andar de bike.
A expectativa de revisitar esses locais que fazem parte das minhas memórias de infância fez com que não pudesse recusar esta oportunidade. Tenho que lá voltar.
Vou no dia antes de forma a aproveitar a visita à parte paterna da família que habita na aldeia com o nome pouco comum de Aranhas, que pertence ao concelho de Penamacor.
Durante o dia e segundo o A. o início será na bonita Aldeia de Eljas, no Sopé da Serra, cruzando depois o bonito Vale de Xálima em direcção a San Martin de Trevejo. Uma povoação lindíssima e com muita história.
A subida ao Castelo de Trevejo é fenomenal e a visita ás suas ruinas e ao seu Mosteiro, é obrigatória.
Desce-se depois para Villamiel, onde tem início a magnífica subida à Sierra de Jálama, contornando o seu famoso pico, (fica para outra oportunidade) e, sempre em sentido ascendente, atinge-se o bonito Puerto de Santa Clara, por lindos e frondosos bosques, que nesta altura do ano, criam paisagens fantásticas, aliadas ás suas inúmeras cascatas e pitorescos regatos.
Seguem-se uns bons kms por single tracks adrenalínicos, (cerca de 13 kms) desde o Puerto de Santa Clara, sempre à meia encosta e pelas cumeadas, com uma espectacular vista sobre todo o vale e as suas aldeias acantonadas, até chegarmos de novo a Eljas.
Como já referi, a expectativa é grande, mas dificilmente sairá defraudada, uma vez que o A. só faz coisas boas.
Deixo aqui algumas fotos roubadas ao google earth de alguns locais por onde vamos andar.









Depois passo por aqui para contar como foi.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

I like it...

I have a ghost in my garage.



During the past summer I tried a road bike from a friend. It caught me.


I liked the position in the bike. I was afraid of didn’t like it, but surprisingly did. We are constantly in high speed.
I liked the look of the bike. I liked it’s aggressiveness. I liked the sensation of speed it transmits. I liked its stiffness.
I liked the little friction of the tires due to its minimum width and elegance.
I liked to go down fast. I also liked to climb ...
I liked the colours and the decoration of the frame.
I liked the stiffness of the wheels. As for the price, I could have liked more. But even if I liked it, I would never admit it.
I liked to take only half an hour from home to work.

 
I like the freedom it gives me.
I like to do longer distances in less time.
I like going out without a destination.
I like to ride fast, get up of the saddle and ride faster.
I like to play with “teco-Tecos” (no drivers licence required vehicles).
I like to weave through traffic without having to stand still.
I like the relatively low maintenance that requires.
I like to enjoy everything I said.


But what I really like is to ride my bike. Road or mountain. Alone or together.
I like long distances. But also like the short and intense ones.
I like challenges (though to some people may seem a little crazy and frankly to me too).
I like the plans for 2011 and I like all my friends who agreed to join me on this journey (by car or motorbike).


I wish I could do whatever I like.


I will enjoy especially if I can continue to do it, because it would be a good sign.


And in Rita’s words –I like it.

Gosto disso...

Tenho um fantasma na garagem.

No verão passado andei durante algum tempo com uma bike de estrada de um amigo. Fiquei fã.

Gostei da posição a que a bike obriga, a coisa que eu tinha mais receio de estranhar. Curiosamente entranhei-a bastante depressa. Obriga a um ritmo elevado, constantemente em alta rotação.
Gostei da elegância da bike.
Gostei da sua agressividade.
Gostei da sensação de velocidade que transmite.
Gostei da sua rigidez. Gostei do pouco atrito dos pneus devido à sua mínima largura e elegância.
Gostei de descer rápido. Também gostei de subir…
Gostei das cores e da decoração do quadro.
Gostei da rigidez das rodas. Já quanto ao preço podia ter gostado mais. Mas ainda que tivesse gostado, jamais o admitiria.
Gostei de demorar apenas meia hora para percorrer os vinte quilómetros de casa ao trabalho. Já o regresso é mais demorado; sobe mais, mas gosto.

Gosto da liberdade que me proporciona.
Gosto de fazer distâncias maiores em menos tempo.
Gosto de sair sem destino.
Gosto de rolar depressa, levantar-me do selim e aumentar a velocidade.
Gosto de me picar com os teco-tecos (pelo menos a direito e a descer).
Gosto de ziguezaguear por entre o trânsito sem ter que ficar parado.
Gosto da relativamente pouca manutenção a que obriga.
Gosto de gostar de tudo o que disse.

Mas gosto especialmente de pedalar. Na estrada ou no monte. Só ou acompanhado. Gosto de distâncias grandes. Mas também gosto das mais curtas e intensas.

Gosto de tentar desafios (ainda que para alguns possam parecer meio loucos e francamente, por vezes a mim também).
Gosto por isso dos planos para 2011 e dos vários amigos que se disponibilizaram a acompanhar-me nessa jornada (ainda que de carro ou mota).

Gostarei de poder fazer tudo o que gostaria.

Gostarei sobretudo se puder continuar a fazê-lo, porque seria bom sinal.

E como diria a Rita –gosto disso.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

La Revancha (english version)

The day was dawning cold. A thick fog fluttered in the air letting the sun peek sometimes.I arrived on time to have a coffee with Nuno. We hadn’t ride together since June. By that time, Nuno still belonged to the class of two ordinary unpretentious men who like to ride a bike. Now Nuno is still unpretentious, but belonged to the restricted class of the Geo-Raid finishers. Thus my expectation was high, because I would ride to someone in a class above my own ... (it's to the best that you learn with; I'm obviously kidding, because Nuno doesn’t give a shit to that).


After the final preparations, we began our journey which is fondly called “leg breaker” by Machado. The start was made at good rhythm despite all the sand. It is very difficult to progress due to loose ground. Along with the sand, eucalyptus also abounded reminding the surroundings of Corga da Chã.
Later on, a fun trail took us on a roller coaster, where we went through some gardens and a clear stream. We were in the Sentieiras do Souto. Further along the track sent us to the left, but Nuno felt that we should go right to contemplate the Zêzere in all its splendour from the top of “miradouro das fontes”.It’s not easy to get to top due to the hard climb, at least to me. Nuno doing justice to the bike’s name seemed a lightning.


There we eat something and we prepared to the descent. Although we still chatted a little with a cute kid who was riding in circles around there. The descent was fast taking us back to the track and to the Ribeira da Brunheta. One more climb to Cabeça Gorda, where some wonderful figs are waiting for us.

We attacked them as we could, but with the owner’s permission, well, more or less, someone authorized us, but I’m not quite sure he was really the owner.
We went then to the river beach of Aldeia do Mato, a beautiful blue flag place that spreads over the hills of Zêzere.
We continued forward, or rather, up. Arriving there we should have followed to the left, instead went to the right. What a nonsense. When we realized that, we were completely off the track. There were some potentially interesting options (rather than back) and we decided to follow one of them. Dead end.

Option two. After a few kilometres of descent, another dead end. Annoyed but resigned, we ended up choosing the last option that was returning back to the original track.
We did a bit of tarmac, where we were taking turns (pulling) until we left tarmac.


A good talk followed (as usual) with some Nuno’s stories of Geo-Raid. That's how we came back to Abrantes at lunch time.



sexta-feira, 22 de outubro de 2010

La revancha

O dia foi amanhecendo frio. Um nevoeiro cerrado adejava no ar deixando o sol lobrigar a espaços.
Cheguei à hora marcada a tempo de ainda tomar um café com o Nuno. Já não andávamos os dois desde Junho. Na altura ainda pertencíamos os dois à classe dos homens comuns e despretensiosos que gostam de andar de bike. Agora o Nuno continuava despretensioso mas pertencia à restrita classe dos finishers do Geo-Raid. Deste modo a minha expectativa era grande, uma vez que iria andar com alguém numa classe acima da minha… (é com os melhores que se aprende; estou obviamente a brincar, porque o Nuno não é nada destas merdas).
Depois dos últimos preparativos, lá seguimos à procura das subidas que faziam parte do percurso escolhido para o efeito o qual é carinhosamente apelidado pelo Machado de quebra pernas.
O início foi feito a bom ritmo apesar da muita areia onde não raras vezes a progressão é bastante difícil, quer a direito quer nas subidas devido ao piso solto. A par da areia, o eucalipto também abundava fazendo lembrar ao Nuno as imediações da Corga da Chã. Mais à frente, um divertido carreiro levou-nos qual montanha russa num sobe e desce constante onde atravessámos algumas hortas e um límpido riacho. Estávamos em Sentieiras do Souto.



Mais à frente o track mandava-nos para a esquerda, mas o Nuno achou que devíamos seguir para a direita para contemplar o Zêzere em todo o seu esplendor do alto do miradouro das fontes.
É claro que a subida era inclinadinha e comprida, daquelas de por a língua a tocar na pedaleira (pelo menos a minha, porque o Nuno fazendo jus ao nome da bike parecia um raio por ali acima). Uma pequena “revancha” por todas as vezes em que era eu a jogar em casa.Lá em cima comemos qualquer coisa e preparámo-nos para descer. Ainda trocámos algumas palavras com um simpático puto que por ali andava às voltas de bike. A descida foi rápida levando-nos de volta ao track e à Ribeira da Brunheta. Mais uma subida até Cabeça Gorda, sendo que lá no alto uns maravilhosos figos esperavam por nós. Não nos fizemos rogados e atacámo-los como pudemos; isto com a devida autorização do dono, bem, mais ou menos, alguém nos autorizou mas não tenho bem a certeza que fosse mesmo o dono.


Seguimos até à praia fluvial de Aldeia do Mato, um local muito bonito que se espalha pelas encostas do Zêzere sendo possuidor de bandeira azul.
Continuámos para a frente, ou melhor, para cima. Chegados lá acima devíamos ter seguido para a esquerda; ao invés fomos para a direita. Asneira. Quando demos conta estávamos completamente fora do track. Havendo algumas opções potencialmente interessantes (mais do que voltar atrás) resolvemos seguir uma delas que talvez fosse de encontro ao caminho certo. Claro que isso não aconteceu. Dead end.
Voltámos atrás e escolhemos a segunda opção. Após uns quilómetros de descida, mais um caminho que acabava abruptamente. Ainda seguimos alguns metros por aquilo que parecia ser o leito (agora seco) de um pequeno ribeiro, mas até aí a densidade da vegetação impediu-nos de continuar.
Contrariados mas resignados, acabámos por escolher a última opção que foi voltar atrás de encontro ao track perdido sendo que foi sempre a “descer” até lá acima.
Fizemos um pouco de alcatrão, onde nos fomos revezando no puxar até entrarmos novamente em terra. A conversa seguia animada (como é normal) com o relato do Nuno de algumas das suas estórias do Geo-Raid.
Foi dessa forma que regressámos a Abrantes a tempo do almoço, que a fome já se fazia sentir.


Nota: uma vez que agora tenho ao dispor uma janela de estatísticas que me permite ver quais os países que mais visitam este espaço, achei por bem colocar uma versão em Inglês, sendo que os EUA são o segundo país a visitar este espaço, depois da nossa pátria (vá-se lá saber porquê!). A versão deste post em Inglês será aqui colocada posteriormente.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Prólogo - a origem

O ano passado enquanto me encontrava em estado TTF (tou todo f#$&#o) prometi a mim mesmo que se pudesse voltar a pedalar iria fazer uma visita ao Santuário de Fátima. Confesso que não sou uma pessoa muito crente, mas que diabo (olha a blasfema) mal também não faria certamente. O Domingos prontificou-se logo a acompanhar-me, mas com uma condição, ir por terra e não por alcatrão.

O percurso

O trajecto foi feito recorrendo ao corte e costura. Uns meus, uns do gpsies e outros ainda desenhados no google earth. É claro que havia uma grande probabilidade da coisa não correr exactamente como planeado, e assim foi.

O parceiro

Fraquinho, como convém nestas coisas, que isto de fazer distâncias grandes é bem mais engraçado se nos formos divertindo com o sofrimento dos outros. O nome máquina de guerra é mesmo só para intimidar.

O despertar

Por norma acontece quando me levanto, mas desta vez aconteceu só lá para os lados da Cumeada. Já o do meu parceiro parece que foi acontecendo ao longo da noite. Ao que parece a tripa tirou-lhe o sono. É sempre espectacular de ver as desculpas que se arranjam para um antecipado paupérrimo desempenho.

O início

A subir, para não fugir muito à regra. E o aquecimento foi feito com o sol, que brilhava no céu por cima de nós… assim à macho.

O carro de apoio (ou também – carro de reanimação)

À pois é, a organização não deixa nada ao acaso, assim como assim tinha que precaver a eventual desistência do meu parceiro e fui logo tratando de lhe arranjar uma boleia. O staff era composto por pessoal altamente especializado… em coisas.





A jornada

Após a primeira subida do dia fui-me logo inteirando do estado do meu parceiro que denotava algumas dificuldades respiratórias. Afinal era do pó que estava a comer da minha roda (toma, embrulha).

Foi com a dificuldade esperada que se foi arrastando até ao primeiro PECOCA (ponto de encontro com o carro de apoio). Lá chegados tive que apertar a caixa de direcção, enquanto o D. engolia a primeira das 36 sandes do dia. Problemas de estômago? Pois, pudera.
Lá seguimos em direcção ao primeiro rebuçado do dia como o D. carinhosamente apelidava as subidas marcadas no Google earth que nem a pé quase se conseguiam fazer. Claro que logo a seguir nos esperava uma daquelas descidas que fazem a suspensão chegar ao fundo.





Pouco depois o segundo PECOCA e a segunda sandes do dia para o D. Pouco depois passaríamos o rio Zêzere em direcção a Ferreira do Zêzere. Logo após, voltámos a entrar na terra que nos levaria até Tomar.
Uns quilómetros à frente, o trilho que seguíamos começou e estreitar terminando num campo com vegetação seca e com ervas mais altas do que nós. Conferimos o gps, mas era mesmo por ali e assim teve que ser. Lá fomos abrindo caminho pelas ervas fora até chegarmos a uma clareira onde tivemos mesmo que parar para tirar todas as carrapetas que entretanto se haviam colado a nós. Mais à frente -isto no meio da floresta- um portão erguia-se à nossa frente como que a dizer que não podíamos seguir por ali. Uma vez que o mesmo se encontrava ali “sozinho”, isto é, sem vedação à volta, só tivemos que o contornar para seguir em frente. A saída daquele troço, teve que ser feita em jeito de escalada, uma vez que o portão seguinte encontrava-se devidamente acompanhado de uns muros que só poderiam ser transpostos passando por cima. Nada que nos fizesse alterar a nossa marcha. Entretanto fomos apanhando várias secções do trajecto fechadas onde tivemos que avançar a custo pelo meio do mato, o que nos custaria algumas lesões ao nível da cútis.





Antes de chegarmos a Tomar parámos para pedir água a um gentil -porém com uma ganda moca- jovem que se encontrava a regar a sua moto. A figura apresentava-se de olhos semi-cerrados com uma voz arrastada e uma tatuagem feita a caneta de feltro no braço esquerdo. A nossa masculinidade foi imediatamente posta em causa, perante a figura de, e este sim, o verdadeiro macho. Escusado será dizer que o diálogo entabulado com este jovem foi uma coisa desconexa e a roçar o destrambelho. –Então e Tomar ainda fica longe? –digo eu em jeito de despedida, -nããã, ficaaaa peeertooooo, maaaas aindaaaaa é um booooocadooooo longeeeeee – diz o jovem. Lá partimos de sorriso nos lábios e de gargalhada contida.
Pouco tempo depois, mas um bocadinho ainda (tal como nos havia sido indicado) lá chegámos a Tomar onde o carro de apoio nos esperava com o almoço e com uma botija de oxigénio para o D. Por pouco não teve que receber manobras de SBV quando parou.
Após enfardar umas 5 ou 9 sandes, meloa, morangos e uma garrafa de O2 o D. encontrava-se pronto para continuar o seu ritual de sofrimento e de auto-destruição que o acompanharia até Fátima ou até acabar por desfalecer no caminho.
A paragem seguinte foi no aqueduto de Pegões, um magestoso aqueduto onde aproveitámos para abastecer de líquidos e colocar qualquer coisa nos bolsos do jersey para o caminho.




O D. entretanto ia olhando com desconfiança para uns abutres que há já uns quilómetros nos seguiam lá no alto, sentindo talvez o eminente mas inevitável fenecimento do meu colega de jornada.



Até Fátima pouco mais aconteceu, a não ser mais um entusiasmante carreiro que entretanto se havia fechado com o tempo e que nos obrigou a voltar atrás e apanhar uma rota alternativa.
Acabámos por chegar a Fátima onde numa esplanada tratámos da re-hidratação e vimos a eliminação da selecção Francesa (este blog está à frente na categoria dos blogs quase actuais). Toma lá Domenech, embrulha que ninguém te manda ser parvo.

Para meu espanto e principalmente dele próprio, o D. acabou por chegar a Fátima (tenho para mim que em determinadas alturas do percurso ele foi deambulando em estado de semi-inconsciência misturada com embriaguês, não se lembrando de grande coisa).






Epílogo

Acabámos no Santuário onde agradecemos o facto de poder voltar a andar de bike (pelo menos por enquanto) e de o D. ainda se encontrar com vida depois deste dia.
Todos os acontecimentos relatados são inteiramente verdade e a nossa jornada acabou com 95 quilómetros a uma média de 18, o que foi bastante bom.

Talvez possa ter exagerado um pouco no que diz respeito ao meu parceiro, na verdade exagerei. . . bastante. O D. é uma máquina e de facto o nome “máquina de guerra” existe (autoria do Jerónimo) e muito bem, uma vez que seguir na roda dele não é fácil sendo muitas vezes quase impossível. Além do mais acumula com o facto de ser excelente pessoa dando-me o privilégio de ser meu amigo.

Obrigado Domingos pela companhia e pela partilha deste dia. Um obrigado também à Isabel (a sra. D.) a condutora do carro de apoio que acabou por chegar bem, apesar dos constantes desatinos com a Catarina (a menina que mora dentro do GPS).

As outras aventuras um pouco menos quase actuais irão sendo aqui colocadas à medida que for sendo possível. Também não quero de forma nenhuma passar para a categoria dos blogues actuais.